Conhecendo nossa cidade, ela é nosso campo missionário

do Evangelho e de ações ministeriais que produzam um impacto transformador, precisamos conhecer nossa cidade, pois ela será nosso campo missionário. Quando falamos em missões transculturais, enfatizamos a importância de o missionário conhecer bem as características sociais, geográficas e culturais do povo para onde ele está sendo enviado; mas, quando falamos em missão urbana, não nos preocupamos em conhecer nossas cidades com todas as suas complexidades.

Conhecer a cidade onde se está ministrando é fundamental para a sua transformação, pois ela é o campo de ação do missionário urbano e, como tal, possui as suas características geográficas, culturais, sociais, econômicas e espirituais. Por isso, o missionário urbano, assim como um exegeta, precisa fazer uma exegese da sua cidade para saber quais serão as ações ministeriais que poderão produzir transformação nessa cidade.

 


A primeira coisa que devemos fazer é conhecer nossa cidade. Temos que entendê-la, entender como ela opera, por que funciona e para que propósito. Devemos perguntar quem se beneficia na nossa cidade e por quê? Quem está levando vantagem e por quê? Por que a igreja é tão frequentemente marginalizada e ignorada pela cidade? Temos que entender nossa cidade política, econômica e socialmente. Mas, como cristãos, elevemos, acima de tudo, entender nossa cidade espiritual e biblicamente.


I. O FENÔMENO DA URBANIZAÇÃO

O fenômeno social conhecido como urbanização tem atingido proporções globais. Praticamente em todo o mundo, o processo migratório do campo para a cidade chamado de êxodo rural é uma realidade crescente. No Brasil, a urbanização já atingiu 85% da população. Isso quer dizer que, a cada 100 brasileiros, mais de 80 vivem em grandes ou pequenas cidades. Em questões mais globais, existem no mundo 20 cidades com mais de 10 milhões de habitantes; mais de 60 com mais de 4 milhões e mais de 400 com mais de 1 milhão.

 

Todos esses fatores levam-nos a assumir um compromisso natural com o alcance dessas cidades.

 

Em resposta a isso, é importante lembrarmos que Deus mesmo está urbanizando o mundo. Não é necessário provar isso numericamente. Em todos os cantos do planeta e em todos os continentes, isso está acontecendo sob o domínio do nosso Deus soberano. Quer aceitemos ou não, a cidade urbana é uma marca de destaque no século XXI. Este século será o século das cidades; e este mundo será o mundo das cidades.2

 

O objetivo deste capítulo não é apresentar uma exaustiva exposição de todas as teorias em relação à cidade. Meu objetivo é analisar a urbanização de maneira multidisciplinar, abordando os seus vários aspectos para ajudar o leitor a compreender um pouco alguns dos desdobramentos que fazem da cidade um lugar de paradoxo.

 

II. CONHECENDO A PERSPECTIVA HISTÓRICA DA CIDADE

 

1. Resumo Histórico de Urbanização Brasileira

 

A colonização do Brasil pelos portugueses iniciou-se no século XVI com a plantação da cana-de-açúcar. Embora o cultivo da cana e a sua transformação em açúcar fossem realizados no campo, a comercialização desse produto levou ao desenvolvimento de atividades urbanas, como o comércio, os empréstimos bancários e os transportes marítimos. Com isso, surgiram cidades brasileiras ao longo do litoral, principalmente no Nordeste. Nessas cidades, que eram os centros de comercialização do açúcar, instalaram-se representantes do governo da metrópole portuguesa para exercer o controle das atividades da colônia. Logo chegou em 1549 o primeiro governador-geral, Tomé de Sousa (1503-1579), que fundou Salvador, primeira capital e sede da organização política, jurídica e administrativa da colônia. Recife e Olinda eram as duas outras cidades importantes na época.

 

Durante todo o período em que a economia brasileira dependeu da monocultura canavieira, a maior parte da população vivia no campo. O cultivo da cana e a fabricação do açúcar eram feitos pelo trabalho escravo nos próprios engenhos (as fazendas canavieiras). Nos engenhos, havia algumas lavouras de subsistência; criava-se gado para alimentara população, e desenvolvia-se artesanato para proveras demais necessidades pessoais.

 

Os senhores de engenho também viviam no campo e recorriam ao comércio europeu para obter produtos mais sofisticados para o seu consumo e o da sua família. Por isso, nessa época, não chegou a ser efetivamente estabelecida uma sólida divisão territorial do trabalho entre o campo e a cidade. Do ponto de vista econômico, as cidades limitavam-se a ser um elo com o mercado europeu. Nenhuma se tornou um importante mercado consumidor, pois os escravos não possuíam liberdade e nem salário para adquirir mercadorias.

 

Portanto, a lavoura canavieira permitiu apenas um pequeno crescimento urbano, definindo uma característica que se tornou marcante no Brasil durante cerca de dois séculos: a existência de uma frágil vida urbana, constituída por algumas poucas grandes cidades localizadas no litoral.

 

Apenas no começo do século XVIII, quando a mineração deslocou o eixo da economia brasileira do litoral para o interior, é que surgiram várias cidades pequenas, além de cidades médias, nos lugares em que os recursos minerais (ouro e pedras preciosas) eram encontrados.

A mineração favoreceu uma divisão territorial do trabalho entre o campo e a cidade e, gradativamente, entre várias cidades. Isso porque aqueles que extraíam o ouro não tinham nenhum interesse em ocupar-se da plantação de gêneros alimentícios.

 

Assim, pela primeira vez, estabeleceram-se intensas relações comerciais entre o nordeste açucareiro, o centro minerador e o sul pecuário da colônia. Dessa forma, surgiram cidades como Cuiabá, Barbacena, Ouro Preto (antiga Vila Rica), Sabará, São João Dei Rei, Mariana, Cáceres, Goiás (antiga Vila Boa) e outras. O Rio de Janeiro, onde se localizava o grande porto exportador de ouro, tornou-se capital da colônia em 1763, o que explica por que não tardou a transformar-se numa grande cidade.

 

Apesar de a mineração ter propiciado um crescimento urbano considerável, várias das cidades criadas na região das minas entraram em crise quando se esgotaram as riquezas minerais. Portanto, continuou predominando no Brasil uma vida urbana com poucas grandes cidades.

 

A partir da primeira metade do século XIX, a lavoura cafeeira ocasionou um crescimento significativo de pequenas e médias cidades. A lavoura teve características itinerantes, ou seja, o cultivo do café, com o emprego de técnicas rudimentares, foi esgotando os solos onde era realizado e estendendo-se para outras áreas. Isso explica o surgimento de muitas cidades, primeiro no eixo Rio de Janeiro-São Paulo, depois avançando por todo o interior do Estado de São Paulo e atingindo o norte do Paraná. Um grande número de cidades cresceu ao longo das ferrovias construídas para transportar o café.

 

Entretanto, os capitais provenientes da exportação do café concentraram-se em duas grandes cidades: primeiro no Rio de Janeiro, que possuía 272.972 habitantes em 1872 (enquanto São Paulo possuía apenas 31.385 habitantes); e, depois, em São Paulo, que já possuía 239.820 habitantes em 1900. Na verdade, a lavoura cafeeira trouxe mais benefícios à cidade de São Paulo particularmente a partir do momento em que a exportação de café passou a ser feita pelo porto de Santos.

Embora a lavoura cafeeira tenha contribuído para a formação de pequenas e médias cidades, o processo de urbanização do país só se iniciou no século XX, com a industrialização.

 

A indústria atraiu um grande número de pessoas que migraram do campo para a cidade, o que fez dar início à urbanização. Só então a população das cidades passou a crescer mais do que a população rural do país. Trata-se, portanto, de uma urbanização recente. Apenas em 1970 é que a população urbana brasileira, que correspondia a 56% do total, ultrapassou pela primeira vez a população rural (44%). Em 1980, ela já correspondia a 67% e, em 1990, a aproximadamente 77%.

 

A industrialização tardia trouxe consequências importantes para a urbanização do país. As fábricas instaladas nas cidades que se industrializaram não conseguiram absorver grande parte da população expulsa do campo. Assim, cresceu muito a fração do setor terciário que abriga o subemprego (comércio ambulante, empregos domésticos, etc.) e que utiliza muita mão de obra. Esse setor terciário não qualificado caracteriza a maioria das cidades brasileiras.

 

III. CONHECENDO A PERSPECTIVA GEOGRÁFICA DA CIDADE

 

1. Composição Geográfica do Espaço Urbano

 

a)      O sítio urbano

 

O sítio urbano constitui-se da área ocupada por uma cidade, incluindo o seu terreno, as suas colinas, as baixadas, os vales e os brejos. Algumas cidades situam-se nos planaltos, outras no litoral, e outras na base das montanhas.

 

É importante observarmos que o sítio urbano influencia a vida na cidade, pois a localização geográfica da cidade determina a cultura do lugar e as estratégias que devemos utilizar para alcançar a cidade. Por exemplo, o leitor poderia detectar as diferenças que existem entre a cidade de Gramado, na serra gaúcha, e a cidade do Rio de Janeiro?

 

b)      A situação da cidade

 

Aqui me refiro à sua localização geográfica no que diz respeito ao seu espaço mais amplo, como as suas estradas, os seus meios de comunicação, a sua distância em relação aos grandes centros urbanos e a presença de riquezas naturais tanto nela como nas cidades vizinhas, bem como o modo como isso pode beneficiar ou prejudicar a cidade.

 

c)      O centro da cidade

 

Toda cidade tem o seu centro, que é a área onde se concentram mais pessoas, onde há maior comércio e outros serviços, como movimento bancário, consultórios, entre outros. O centro da cidade não precisa estar localizado na área central do espaço urbano. Ele pode estar situado na orla marítima, por exemplo. Portanto, o centro de uma cidade não se define pela sua localização central, mas, sim, pelo movimento de pessoas, veículos, comércio e os seus imóveis. Em geral, o centro (ou os centros, pois pode haver mais de um) possui edifícios mais elevados que as demais partes da cidade; além de ruas, avenidas e praças mais movimentadas e imóveis que se destacam na vida da cidade (igreja matriz, teatro, etc.).

 

As pequenas cidades possuem um centro tradicional, onde normalmente há uma igreja e a praça principal. Já as médias e grandes cidades podem ter mais de um centro: o centro de negócios (bancos, comércio) numa área e o centro de lazer (bares, restaurantes, praças ou avenidas mais movimentadas pelos pedestres) em outra. Pode existir um centro velho, tradicional e um (ou até mais de um) centro novo, que vem substituindo o antigo como uma área de terrenos mais valorizados, um local de maior movimento de comércio, bancos e pessoas.

 

d)      A expansão da cidade

 

Uma cidade pode crescer de duas formas:

(1) pela construção de elevados edifícios ou galerias subterrâneas (crescimento vertical) e (2) pela expansão do seu espaço urbano (crescimento horizontal). No crescimento horizontal da cidade, há uma expansão da periferia, ou seja, das áreas ou bairros mais distantes. No Brasil, as periferias dos grandes centros urbanos normalmente são áreas pobres, com pouca infraestrutura (água encanada, eletricidade, asfalto, linhas telefônicas, transporte coletivo, etc.). Em alguns países, como, por exemplo, os Estados Unidos, existem periferias urbanas muito valorizadas chamadas de subúrbios, onde residem populações de altas rendas, que se deslocam das áreas centrais para ter mais espaço (casas com amplos jardins e quintais e muito verde nas ruas), fugindo dos congestionamentos e da poluição intensa.

 

Quando se expande uma cidade, ela pode encontrar--se com uma cidade vizinha. Nesse caso, acontece o que chamamos de conurbação, que significa a junção de dois espaços urbanos, normalmente causada pela expansão de uma cidade maior que atingiu os limites de uma ou algumas cidades menores.


e)      A rede urbana

 

A rede urbana é formada por cidades que se destacam nas suas atividades econômicas e culturais, que oferecem algo tanto para a sua própria população como para a população de outras áreas. A essa relação que essas cidades têm entre si denominamos rede urbana. Na rede urbana, o papel principal é exercido por uma grande cidade, que é a que mais se destaca pela influência econômica e cultural em relação às outras. A essa cidade damos o nome de metrópole, que, em grego, significa "cidade-mãe".

 

f)       As metrópoles

 

Normalmente, a metrópole é uma cidade com mais de 1 milhão de habitantes. No entanto, o critério que se utiliza para medi-la não é o número de habitantes, mas, sim, a capacidade de polarização que a mesma exerce, que é a capacidade que a metrópole tem de subordinar a si as outras cidades.

 

IV.   CONHECENDO A PERSPECTIVA CULTURAL DA CIDADE

 

O espaço urbano é composto por vários fenômenos sociais, que, em conjunto, formam a cultura de uma cidade. Para que haja uma comunicação eficaz do Evangelho, faz-se necessário compreender essa cultura e, assim, contextualizar a mensagem divina a fim de que ela seja compreensível à mentalidade urbana.

 

1. Características da Cultura Urbana

 

a)      Pluralismo

 

Para Rubem Amorese, o pluralismo é a capacidade que os portadores do pós-modernismo têm de produzirem:"[...] um efeito inescapável de mostrar, como num supermercado, uma enorme quantidade de opções para um mesmo produto. Você pode escolher o que mais lhe agradar".3

 

Comblim diz que a novidade, a diversidade e a mobilidade da vida urbana tornam-se elementos de sedução, pois tudo isso possibilita ao indivíduo conhecer novas pessoas, passar por novas experiências e experimentar novos prazeres. Ali também eles podem conhecer os seus ídolos, que, outrora, pareciam tão distantes e somente eram vistos pela televisão.

Na cidade pós-moderna, o pluralismo é demonstrado por vários aspectos.

 

b)      Pluralismo cultural

 

Pelo fato de estarmos vivendo na era da informação, é ela que nos traz a realidade, as alternativas e as diferentes maneiras de vermos as coisas em outras partes do mundo. Ao entrarmos em contato com pessoas diferentes de nós, que possuem outros costumes e formas diferentes de enxergar as coisas, começamos a conviver com a ideia de que existe uma alternativa para tudo além daquela que conhecemos.

 

c)      Pluralismo do real conceito da verdade

 

A sociedade urbana pós-moderna não está preocupada em provar o que está certo ou errado, pois a verdade não existe como um fator único e absoluto para ela. Para os pós-modernos, a verdade está enraizada na comunidade a que o indivíduo pertence; e, como existem várias comunidades, existem várias verdades. Para eles, essas pluralidades de verdades podem perfeitamente existir uma do lado da outra desde que haja um respeito entre ambas as partes. Eles ainda dizem que "aquilo que é certo para uma comunidade pode não ser para a outra" e vice-versa.

 

d)      Pluralismo da moralidade

 

Neste tópico, mencionamos o que Amorese diz a esse respeito:

 

No mundo da pluralidade não há absolutos. Em termos de opção, a moralidade não mais existe, porque cada atitude pode ser justificada como sendo uma opção íntima e estribada em motivações e razões particulares que, no caso, não são da conta de mais ninguém. Por exemplo: ser gay, hoje em dia, é apenas uma opção sexual.4

 

e)      Pluralismo da religiosidade

 

Em nossa sociedade, a religião é apenas mais um produto de consumo. O sistema tradicional de religião, que exige compromisso do fiel, já ficou ultrapassado, pois atualmente existe uma infinidade de opções religiosas menos convencionais, que exigem menos compromisso e, ao mesmo tempo, trazem algum tipo de satisfação espiritual, ainda que momentânea.

 

2.      Individualismo

 

Amorese chama esse individualismo de privatização segundo a mentalidade pós-moderna, já que vivemos em uma sociedade -mercado e temos à nossa disposição uma infinidade de opções. Nesse caso, também podemos ter o direito de escolher nossas opções, e ninguém tem nada a ver com isso. E as escolhas são feitas baseadas no resultado imediato, pois as pessoas escolhem aquilo que, em curtíssimo prazo, lhes causem menos dor, esforço ou preço. É na cidade que as pessoas sentem-se libertas das dependências tradicionais da família, dos vizinhos e dos donos do lugar. Na cidade, o indivíduo também é seduzido pela possibilidade de ser "livre" para fazer o que bem quiser.

 

3.      Consumismo

 

Enquanto que, na zona rural, a vida era bastante limitada às opções que o lugar proporcionava e as pessoas deveriam contentar-se com o que se tinha disponível, isso já é diferente na cidade. Aliás, é essa busca por meios e maneiras mais alternativas de viver que levou milhões de brasileiros a deixar o campo e aventurar-se a ganhar a vida na cidade. Como prova disso, basta ir ao centro de uma cidade (principalmente de uma metrópole) e observar o grande número de pessoas entrando e saindo nos estabelecimentos comerciais, comprando e consumindo os mais variados tipos de produtos.

 

Por isso, Jean Baudrillard (1929-2007) denominou nossa sociedade de "sociedade de consumo". Segundo ele, nós "[...] viveríamos em um contexto onde o consumo invade a vida das pessoas, suas relações envolvem toda a sociedade e as satisfações pessoais são completamente traçadas através dele".5

 

4.      Dinamismo

 

Se o mundo rural é parado, o mesmo não acontece na vida urbana. Na cidade, as pessoas estão sempre correndo em busca de melhores condições e conquistas; as famílias querem melhorar a casa, aumentar o seu espaço, adquirir mobília nova, carro novo, ter mais conforto e vestir a roupa da moda.

 

Uma prova do dinamismo da cidade é a sua constante mudança. A mesma acontece por meio das transformações do espaço com as grandes obras de construções, novos prédios para abrigar shoppings centers, lugares de lazer e entretenimento.

 

Essa correria motivada pelo desejo desenfreado de sempre conquistar mais faz com que as pessoas da área urbana afastem-se das igrejas tradicionais e comecem a querer os movimentos que sejam dinâmicos assim como eles. Hoje em dia, muitas pessoas vão para um templo não para adorar a Deus, mas para, de certa forma, "consumir" Deus. Não são adoradores, mas consumidores das coisas sagradas.

 

5.      Tribos urbanas

 

Tribo urbana é o termo geral como são chamados os vários grupos urbanos. A tribo é um conjunto de comunidades que falam a mesma língua e possuem os mesmos costumes, tradições, normas, ritos e instituições em comum. Trata-se de uma organização social bem antiga.

 

Sobretudo nas grandes cidades, os adolescentes e os jovens formam grupos mais ou menos conhecidos e até temidos, quando não violentos. São chamados de turmas, galeras, comandos e bandos. Os grupos mais agressivos são as famigeradas gangues ou quadrilhas, que provocam confusões, arrastões e dominam regiões.

 

Manter boas relações de amizade nas cidades grandes não é fácil. Mesmo a vizinhança tem pouca aproximação. Portanto, o processo de tribalização ou de formar grupos de pessoas com interesses comuns é a maneira que muitos encontram para resistir à despersonalização no meio das multidões e estabelecer relações de companheirismo.

 

Com o enfraquecimento de certas instituições sociais, como a família, a escola e a religião, aumentou a procura dessas tribos por parte dos jovens que vivem na miséria e na marginalização sempre crescentes e que levam à perda dos valores, à violência e à insegurança. A rua, além de ser espaço de socialização, passou a ser lugar de aprendizado do crime nas periferias. As tribos urbanas participam dessa realidade e, muitas vezes, praticam violência, causando medo nas pessoas.

 

As tribos chegam até a fazer coisas surpreendentes. Eles partilham o que têm entre si e ajudam uns aos outros, mas tornam-se violentos e destruidores quando consomem drogas ou entram em conflito com outras gangues.

 

V. CONHECENDO A PERSPECTIVA SOCIAL DA CIDADE

 

As cidades são os centros culturais, econômicos, governamentais, populacionais, de transportes e comunicações. São nelas que as pessoas deslocam-se para conseguir emprego para ganhar a vida. Também é nelas que encontramos uma variedade de atividades culturais e recreativas. Ainda assim, nem tudo na cidade é belo e alegre, pois é nelas que encontramos, talvez, os mais profundos problemas de nossa sociedade, uma vez que a sociedade urbana enfrenta problemas de ordem social, econômica e governamental.

 

1. Problemas sociais

 

Os problemas sociais das cidades modernas abrangem o crime, a delinquência juvenil, o alcoolismo, a droga em alguns países e o atrito entre grupos de origens distintas. A pobreza, problema tanto social quanto econômico, também é uma realidade presente.

 

Comportamentos antissociais, como o crime, a delinquência juvenil e o vício da droga, devem-se, em parte, à incapacidade de certas pessoas para ajustarem-se à vida urbana. Os sociólogos apontam o relacionamento impessoal da sociedade urbana com o indivíduo como a causa dessa incapacidade. Alguns sentem como se não houvesse um lugar na sociedade para eles. Talvez se voltem para o crime e para a delinquência como maneira de criticar a sociedade ou de obter vantagens materiais; talvez procurem uma fuga da sociedade por meio do abuso do álcool e das drogas. A aplicação mais rigorosa da lei poderá ajudar a reduzir o comportamento antissocial, mas o problema não poderá ser eliminado completamente enquanto as suas causas não forem eliminadas. Organizações privadas e governamentais têm sido criadas a fim de tentar reduzir o comportamento antissocial. As moradias precárias também são outro problema social. Essas são habitações mal construídas, em ruínas, insalubres ou com excesso de moradores. Nos países em desenvolvimento, milhões de pessoas vivem em barracos ou em outras moradias que mal proporcionam algum abrigo.

 

2.      Problemas econômicos

 

A maioria dos habitantes das cidades nos países desenvolvidos usufrui de elevado padrão de vida. No entanto, mesmo nas melhores épocas, há sempre muitas pessoas pobres numa cidade. Com muito mais razão, isso se aplica às cidades dos países menos desenvolvidos ou subdesenvolvidos. A pobreza sempre existiu, mas a riqueza que se observa nas cidades modernas faz realçar o problema. As classes pobres, em muitos lugares, procuram reivindicar melhores condições de vida, o que às vezes tem provocado distúrbios em alguns locais.

 

Complexos fatores econômicos e sociais às vezes conduzem a uma queda nos negócios. Durante os períodos de recesso econômico, muitos trabalhadores perdem o emprego, e o número de necessidades nas cidades aumenta. Os desempregados diminuem as suas despesas, e os negócios sofrem uma retração.

 

3.      Problemas governamentais

 

Com o decorrer do tempo, a tarefa de administrar as cidades tornou-se cada vez mais complexa. Hoje, os governos das cidades veem-se obrigados a restaurar áreas velhas e em ruínas e a oferecer boas escolas, proteção policial e outros serviços necessários. O crescimento e a mudança da população, a falta de recursos e de autoridade, o conflito de poderes; enfim, tudo contribui para dificultar o governo das cidades.

 

O constante aumento da população das cidades indica que os seus governos devem fornecer serviços para um número cada vez maior de pessoas. Em algumas cidades, assim como nas capitais brasileiras, os recém-chegados frequentemente são famílias provenientes do campo, quase inteiramente desprovidas de recursos; incapazes, portanto, de pagar pelos serviços de que necessitam. Os governos estaduais e federais ajudam a cobrir o custo para manter uma cidade. Ainda assim, as cidades enfrentam sérias crises financeiras.

 

O governo de uma cidade faz parte de um complicado sistema de poder. Cada cidade tem as suas próprias normas e, em alguns países como o Brasil, também tem que se sujeitar a certa regulamentação ou leis estaduais e federais.

 

VI. CONHECENDO A PERSPECTIVA ESPIRITUAL DA CIDADE

 

Ao buscarmos estratégias para a realização de nossos projetos missionários e evangelísticos, não podemos esquecer-nos de que todos os meios humanos que utilizarmos terão pouco ou nenhum impacto se não levarmos em consideração a realidade do conflito que está sendo travado no mundo espiritual.

 

O que tenho descoberto é que toda a tecnologia evangelística do mundo exerce apenas um efeito mínimo, a menos que a batalha espiritual seja vencida. É como um automóvel zero quilômetro, dotado de avanços tecnológicos mais recentes. Um carro bonito e perfeitamente construído, mas que não pode funcionar enquanto não for bombeado o combustível para o seu tanque. A mesma coisa aplica-se ao poder espiritual nos campos do evangelismo e crescimento da igreja.

 

Os estudiosos do crescimento da igreja nas cidades têm percebido que, em todo o mundo, os fatores espirituais são mais cruciais do que os fatores institucionais e sociológicos. Por isso, esses missiólogos entendem o porquê da expansão e do crescimento do movimento pentecostal: "Em toda a história da humanidade, nenhum outro movimento voluntário não militarista e não-político têm crescido de forma tão dramática nos últimos anos quanto o movimento pentecostal".

 

O fato é que a verdadeira batalha na missão urbana em uma cidade é a batalha espiritual. Por isso, o movimento pentecostal tem crescido nas cidades, pois o seu estilo de evangelização envolve sinais e maravilhas, libertação dos demônios, curas, adoração contínua e contagiante.

 

As cidades de nossos dias estão debaixo de maldições e de domínios malignos. Existem determinadas coisas que acontecem nelas que não temos explicações humanas; ou seja, são fatores espirituais. Se nos preocupássemos em estudar um pouco da história das cidades (como, por quem e para quê ela foi fundada), descobriríamos coisas muito importantes a seu respeito, assim como saberíamos por que determinadas coisas acontecem no seu dia a dia.

 

Ainda falando sobre olharmos para além do que está visível, é importante salientar que fatores culturais aparentemente importantes do ponto de vista sociológico podem ser, na verdade, expressões do tipo de domínio maligno que atua na cidade.

 

Os antropólogos costumam analisar coisas como a arquitetura e a arte, bem como o comportamento humano em várias culturas. Eles são capazes de distinguir com notável exatidão as formas, as funções e os significados dos componentes culturais. Mas até mesmo os melhores cientistas sociais só podem examinar aquilo que é visível. Para irem além disso, teriam que apelar para uma dimensão que é estranha para a antropologia cultural - o discernimento de espíritos. A antropologia vê a cultura como ela parece ser, ao passo que o mapeamento espiritual tenta enxergar a cultura (cidade) como ela realmente é.

 

Precisamos olhar nossa cidade do ponto de vista de Deus. Procure imaginar sua cidade conforme ela é vista do alto. Usualmente, uma cidade consiste em uma massa de pessoas de várias classes sociais. Algumas dessas pessoas esforçam-se por levar uma vida moral, refinada e decente, ao passo que outras se caracterizam por um estilo devida menos disciplinado. Mas toda aquela gente acha-se engolfada em uma teia de futilidades, na maior parte das vezes acompanhadas por profundos pesares pessoais. Muitas cidades vivem às voltas com o crime e a violência, já outras são dominadas pela ansiedade de encontrar algum significado para a existência.

 

Artigo: Pr. José Alves