De início, devemos dizer que o conceito bíblico para uma vida próspera se fundamenta em um correto relacionamento com Deus. Isso quer dizer que não podemos estabelecer um ideal de prosperidade em cima de técnicas, fórmulas ou quaisquer outros meios que possam substituir a comunhão do crente com o seu Deus.

Quando esse princípio não é observado, então já não temos mais a Prosperidade Bíblica, mas uma "Teologia da Barganha". É exatamente isso que estamos presenciando hoje no protestantismo brasileiro - um verdadeiro festival de "toma-lá-dá-cá".

Há uma rifa da fé e quem der mais tem a promessa de conseguir muitas bênçãos. Antes de comentarmos a Prosperidade na perspectiva bíblica, se faz necessário mapearmos as consequências dessa Teologia da Barganha ou, como é comumente conhecida, Teologia da Prosperidade.

I. O direito legal

Um dos principais pressupostos da Teologia da Prosperidade, que também é denominada acertadamente de "Teologia da Barganha", atende pelo nome de teologia do direito legal. O crente, como herdeiro de Cristo, passa agora a possuir muitos direitos, inclusive o de mandar e até mesmo questionar Deus e lhe dar ordens! Cabe a ele apenas se conscientizar da existência desses direitos e tomar posse da bênção. Nada de soberania ou vontade divina. Deus fez leis e cabe ao crente reivindicá-las e a Ele, cumpri-las. As promessas de prosperidade e curas estão disponíveis para quem conhece essas leis e sabe usá-las.


1. O perigo de se perder a transcendência divina
A Teologia da Prosperidade perdeu a transcendência divina. Tem um Deus imanente, mas não transcendente. Deus não passa de um garçom pronto a servir crentes cheios de desejos meramente egoístas. Devemos ressaltar que a doutrina da imanência de Deus é bíblica. Ele está presente na criação, mas não pode ser confundido com ela (2 Co 6.16). Podemos vê-lo nas coisas criadas (SI 19.1), mas isso não significa dizer que tudo é Deus, como, por exemplo, faz a doutrina panteísta. Por outro lado, a doutrina da transcendência diz que Deus é distinto de Sua criação, embora esteja envolvido com ela (Rm 9.20). Deus é transcendente, isto é, está acima das coisas as quais criou (Is 55.8,9).

2. O perigo de se colocar o objeto no lugar do sujeito
A Teologia da Prosperidade inverteu os polos e colocou o objeto no lugar do sujeito. E o que é pior: acabou por transformar o sujeito em objeto. Gente virou mercadoria e a fé se converteu em um grande negócio. O homem foi "coisificado" para se transformar em uma mercadoria vendável.


II. Símbolos religiosos passam a ganhar vida própria
Isto quer dizer que simples objetos são, visto como algo detentor de um grande poder ou carregados de energia. Passam a possuírem um poder quase mágico. A água, depois de "orada" ou benzida, já não é mais uma combinação de elementos químicos, mas algo que pode curar até mesmo o câncer. Não é mais Jesus quem cura, mas o poder da água milagrosa. Uma simples toalha, se foi usada por um consagrado homem de Deus, de preferência um "apóstolo", se converte em um poderoso remédio capaz de curar qualquer doença.

1. Espiritualidade não se fundamenta mias em relacionamento, mas no domínio de uma técnica.
Essa teologia transformou o discipulado cristão em algo meramente mecânico. Deus foi transformado em um bem de consumo e a fé, em uma técnica. Para que buscar um relacionamento com Deus, que evidentemente tem seu custo, se podemos possuir riquezas e saúde simplesmente pelo domínio de determinadas técnicas? Dietrich Bonhoeffer denominava esse tipo de evangelho como "graça barata". Uma graça que não tem custo, mas que não transforma ninguém.
 
III. A prosperidade no Velho Testamento
Quando nos referimos à Prosperidade no contexto bíblico, devemos levar em conta um conjunto de fatores, que tanto o Antigo como o Novo Testamentos põem em destaque na construção dessa importante doutrina bíblica.

Devemos levar em conta, por exemplo, que no AT havia um contraste enorme entre ricos e pobres. Não havia somente ricos, mas também muitos pobres. Isso nos ajuda a corrigir um ensino equivocado dos pregadores da fé que passam a ideia de que no AT estamento o povo de Deus não passava por revezes, mas viviam pisando em ouro. E o caso, por exemplo, de Rute, a moabita, e Boaz. Ele era rico, mas Rute era pobre, todavia ambos eram abnegados servos de Deus (Rt 2.1,2).

Esse fato nos ajuda a desfazer duas ideias equivocadas sobre riqueza sempre e pobreza e que ainda continuam em voga hoje em dia. A primeira dessas ideias via a riqueza como uma consequência natural da bênção divina e a pobreza necessariamente como um sinal do julgamento de Deus sobre a pessoa. Por outro lado, havia aqueles que iam para o extremo oposto e não acreditavam que nenhum rico contava com o favor divino, pois somente os pobres eram merecedores desse favor. Todavia, o que vamos observar, ainda no Antigo Testamento, é que nem a riqueza nem a pobreza podem servir como aferidores da prosperidade de alguém.

Havia ricos que não eram prósperos, como, por exemplo, Nabal (ISm 25.2,3,6,25), além do fato de haver até mesmo ímpios que prosperavam! Davi verificou que os ímpios também "prosperam" (Sl 73). No Antigo Testamento, observamos que havia outros valores que eram tidos como sinais de uma vida próspera, e não somente a prosperidade material. Esses valores são espirituais, tais como a justiça, o entendimento, a humildade etc.


1. O trabalho
Vemos também que o Antigo Testamento associa a prosperidade ao fruto do trabalho e bênção divina (Dt 8.11-18). A ideia de prosperar sem fazer força é totalmente contrária às Escrituras. O teólogo Hans Walter Wolff destacou essa verdade, quando disse:

"A riqueza não é considerada como algo dado, mas como algo que pode se originar das mãos do ser humano responsável. Quanto às diferenças sociais de riqueza e pobreza, em todo caso, também devem ser observadas a laboriosidade e a desídia, a fim de não ignorar a verdadeira realidade do ser humano (...) até a liberdade e a servidão, a superioridade e a opressão também dependem da dedicação ao trabalho (Pv 13.4; 12.24)".

2. A bênção do Senhor
A Escritura veterotestamentária mostra ainda que a nossa prosperidade não é apenas fruto de nossas mãos, ela é também resultado da bênção do Senhor sobre nossos empreendimentos e vida (Pv 10.22). Sem a bênção do Senhor, o nosso trabalho não passaria de ativismo. E a bênção do Senhor que enriquece e faz o nosso labor ser prazeroso.

3. Retribuição e soberania divina
Por último, devemos lembrar que nosso entendimento da Prosperidade nas páginas do AT seria totalmente equivocado se não levássemos em conta dois princípios funda- mentais para uma correta compreensão da mesma. O primeiro deles é o da retribuição divina pelos nossos atos. Deus abençoa os obedientes e pune os desobedientes. É o que chamamos normalmente de lei de causa e efeito. Todavia, essa lei de causa e efeito não acontece de forma mecânica, ela leva em conte o relacionamento que o crente tem com Deus.

Por outro lado, outro princípio bem nítido no AT é o da soberania divina. Deus abençoa a quem ele quer, assim como enriquece ou empobrece da mesma forma a quem quiser. Não adianta criar leis sobre a prosperidade financeira e deixarmos de fora a soberania divina. Deus é Deus e continuará sendo Deus. Ele faz o que quer fazer. O sofrimento de Jó mostra de forma clara que a soberania de Deus permitiu que ele fosse provado, mesmo sendo um homem piedoso e irrepreensível (Jó 1e 2).

IV. A prosperidade no Novo Testamento

Acabamos de ver um resumo sobre o conceito de prosperidade no AT, mas, como dissemos que o nosso entendimento sobre o viver próspero seria imperfeito sem a devida análise do Novo Testamento, vamos agora procurar sintetizar aquilo que a Nova Aliança diz sobre esse assunto.

1. "Ser" e "Ter"
A princípio, convém dizer que a Nova Aliança deixa bem claro que é melhor "Ser" do que "Ter". Até mesmo os sociólogos observam o fato de que a nossa sociedade está mais preocupada com "posses", isto é, o "ter", do que com o "ser". Isso pode ser dito de uma outra forma - o mundo valoriza mais as coisas do que as pessoas. Valoriza mais a estética do que a ética; mas os carismas do que o caráter.

Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, escreveu em seu livro Vida Para Consumo - a transformação das pessoas em mercadoria:
"Na sociedade de consumidores, ninguém pode se tornar sujeito sem primeiro virar mercadoria, e pode manter segura sua subjetividade sem reanimar, ressuscitar e recarregar de maneira perpétua as capacidades esperadas e exigidas de uma mercadoria vendável. A 'subjetividade' do 'sujeito', e a maior parte daquilo que essa subjetividade possibilita ao sujeito atingir, concentra-se num esforço sem fim para ela própria se tornar, e permanecer, uma mercadoria vendável. A característica mais proeminente da sociedade de consumidores - ainda que cuidadosamente disfarçada e encoberta - é a transformação dos consumidores em mercadorias; ou antes, sua dissolução no mar de mercadorias em que, para citar aquela que talvez seja a mais citada entre as muitas sugestões citáveis de Georg Simmel, os diferentes dignificados das coisas, e, portanto, as próprias coisas, são vivenciadas como "imateriais", aparecendo 'num tom uniformemente monótono e cinzento' - enquanto tudo 'flutua com igual gravidade específica na corrente constante do dinheiro'. A tarefa dos consumidores, e o principal motivo que os estimula a se engajar numa incessante atividade de consumo, é sair dessa invisibilidade e imaterialidade cinza e monótona, destacando-se da massa de objetos indistinguíveis 'que flutuam com igual gravidade específica' e assim captar o olhar dos consumidores [...] Ser 'famoso' não significa nada mais (mas também nada menos!) do que aparecer nas primeiras páginas de revistas e em milhões de telas, ser visto, comentado e, portanto, presumivelmente desejado por muitos - assim como sapatos, saias ou acessórios exibidos nas revistas luxuosas e nas telas de TV, e por isso vistos, comentados, desejados".

2. Reino presente e Reino futuro
Infelizmente, boa parte da igreja evangélica tem perdido a dimensão escatológica do Reino de Deus, quando demonstra privilegiar apenas seu aspecto externo, isto é, o "ter" e não seu lado atemporal ou eterno - o "ser". (1 Ts 4.17; 1 Co 16.22).

Encontramos no NT certo homem preocupado mais em "ter" do que "ser" (Lc 12.2-5). Ele queria, por exemplo, ter muitos bens materiais, mas, por outro lado, não demonstrou nenhuma preocupação em ser alguém zeloso com as coisas espirituais (Lc 12.21).

3. Solidariedade e filantropia na igreja primitiva!
Assim como o mundo do AT, a sociedade neotestamentária era formada também por ricos e pobres.

J. Jeremias comenta:
"Os diaristas eram mais numerosos que os escravos. E diarista aquele homem alugado por um rico hierosolimitano como cursor. Os diaristas ganhavam uma média de um denário, com refeição. O pobre que vivia a caçar pombos pegava cada dia, quatro rolas. Diariamente oferecia duas em sacrifício. O preço de 1/8 de denário a rola em Jerusalém, representava um ganho diário de 1/4 de denário. Considerava-se esse ganho como notoriamente fraco. Catastrófica a situação de um diarista, quando não encontrava trabalho".

E nesse contexto de ricos e pobres que a Igreja nasce e começa a se expandir através da ação evangelística. Como resultado dessa ação, muita gente se converte, incluindo as classes mais abastadas. Uma leitura bíblica atenta revela que grande parte dos discípulos, que era formada por escravos, era pobre. A ideia de Prosperidade no NT passa a estar intimamente ligada à solidariedade e à filantropia. A minha prosperidade não pode fazer "vista grossa" para as carências e necessidades do outro. O próspero é alguém que passa a se importar com o seu irmão. Conhecedor das necessidades dos crentes da Judéia, Paulo mostra aos crentes de origem gentílica que eles não deviam esquecer que fora a partir de Jerusalém que a bênção da Salvação chegara até eles. "Se nós vos semeamos as coisas espirituais, será muito recolhermos de vós bens materiais?"
(1 Co 9.11). As igrejas entenderam o apelo do apóstolo e mandaram seus donativos: "Porque pareceu bem à Macedônia e à Acaia fazerem uma coleta para os pobres dentre os santos que estão em Jerusalém" (Rm 15.26).

Divulgação: www.escolabiblicaecb.com | Artigo: Pr. José Gonçalves

 
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